sexta-feira, 30 de abril de 2010

pensando um pouco sobre moda

O mundo contemporâneo nos obriga a desempenhar inúmeras atividades o tempo todo. Precisamos trabalhar, estudar, visitar a família, sair com os amigos, passear... E em todas estas e muitas outras ocasiões, nos preocupamos sempre em apresentar nossa imagem da melhor maneira possível. E para isso recorremos ao que nos valoriza esteticamente: roupas, calçados, acessórios e adornos. Mas nem sempre nos questionamos por que nos vestimos dessa ou daquela maneira. Usamos roupas de uma determinada grife, calçamos em outra e adquirimos acessórios em algumas mais. Buscamos na enormidade de opções disponíveis, criar nossos diversos looks de acordo com o estilo que busque identificar nossa personalidade, mas ao mesmo tempo, somos também influenciados pelo que as pessoas estão usando, sem falar na forte influência que ainda sofremos da mídia a todo momento. Andamos pelas ruas, observamos as pessoas, o que estão vestindo, como são os cortes e cores dos cabelos, que tipo de maquiagem estão usando. Passeamos pelo shopping, as vitrines nos exercem uma forte atração: uma estampa diferente, uma calça “transada”, óculos fashion. Identificamo-nos com algumas coisas, desejamos outras, achamos graça ou repudiamos mais algumas. Este hábito, muitas vezes banalizado pela quantidade de informações que encontramos à nossa frente, faz com que não percebamos que esse desejo de nos mostrar ao mundo de uma forma bela, traduz todos os produtos e artifícios que constituem o que entendemos por moda. Esse tema, rotulado por muitos como trivialidade ou desnecessário, está presente em nossa vida e exerce uma influência muito forte na cultura, expressando valores, desejos, crenças, posições, comportamentos, ideologias, etc. A moda faz parte dos fenômenos culturais e é responsável pela maneira como nos posicionamos dentro da sociedade. Ela nos divide em grupos, mas, ao mesmo tempo, permite também que não percamos nossa individualidade. A moda serve para nós, não somente como portadora de objetos de proteção corporal, mas vai além disso, assumindo um caráter de extensão do próprio corpo. Ela se mostra como uma das possibilidades de externamos ao outro o que somos e o que desejamos ser. É nesse sentido que se explica porque, muitas vezes, optamos por determinadas grifes ou procuramos por alguns produtos específicos, denotando a necessidade que temos de pertencer a determinados grupos e assim nos identificarmos com os mesmos. É por esse mesmo motivo que a moda também serve como um divisor de classes, estabelecendo status, relações de poder e posição social. O que muitas vezes nos falta é justamente uma compreensão maior do que a moda realmente representa em nossa vida e como suas manifestações operam em nossas relações cotidianas. A mudança rápida que ocorre com o que vestimos, com os variados estilos que deixam de ser moda, nem sempre são apreendidos por nós. Isto se trata da própria dinâmica da moda, onde esta transformação, sofrida pelos produtos a cada estação, é o que garante o seu funcionamento e a faz ser moda. Frente a tudo isso, comumente não conseguimos acompanhar o ritmo acelerado destas transformações e nos perdemos em meio a um turbilhão de estilos e opções. Entre tudo isso, talvez ainda nos questionemos sobre a origem destas transformações e sobre quem dita o que é “estar na moda”. E assim tentamos entender de onde os criadores tiram suas idéias e inspirações até chegarem aos produtos finais. O que acontece de fato é que a moda é ditada por todos nós - pelo que estamos usando, pelo que pensamos, ou ainda pela maneira como estamos agindo. É nesta relação de comportamentos culturais e valores que desenvolvemos no dia-a-dia, que acabamos por definir o que entrará em vigor na moda. O que os estilistas fazem é estar com o “olho armado” e a sensibilidade aguçada para captar essas influências do cotidiano, às vezes buscando uma intersecção com o passado e traduzindo-as em linguagem da moda, com objetos esteticamente agradáveis, responsáveis por aguçar nossos desejos e nos seduzir perante as vitrines.
Javer Volpini / Fortaleza, maio de 2007

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