sexta-feira, 30 de abril de 2010

DÉCADA DE 30: feminilidade àquilo que em "quase nada se alterou"

Trabalho apresentado à disciplina Indumentária II, para a Professora Maya Marx Estarque, da faculdade SENAI/CETIQT em novembro de 2008, inserido no estudo de modelagem, através de moulage em manequim masculino.
Este trabalho consiste no desenvolvimento de três peças para o vestuário masculino, inspiradas na moda da década de 1930. A escolha por este período confirma o estilo de minhas criações, estruturado no desejo de possibilitar ao vestuário masculino, um leque maior de opções para um público cada vez mais heterogêneo.
A sensibilidade e o romantismo dos anos 30 trazem à tona uma silhueta feminina abandonada pela androginia e minimalismo da década anterior. A cintura marcada, os vestidos longos, o corte em viés, o caimento perfeito, o glamour do cinema hollywoodiano, as costas nuas, as estampas românticas, os esportes, a vida ao ar livre, o oásis litorâneo, entre outras peculiaridades, fazem da década de 30 uma época de muita elegância e sensibilidade nas roupas femininas, embora esse vestuário esteja pautado pela simplicidade, devido à recessão econômica do período.
São estes conceitos do feminino que desejo trazer em minha proposta, embora numa versão de produtos para um público masculino. As referências desse gênero são escassas, afirmação observada na grande maioria dos autores quando dizem que “a indumentária masculina em quase nada se alterou”. Dessa forma, proporcionar ao homem uma roupa mais elaborada, libertando-a de sua histórica rigidez, já está na pauta da moda contemporânea e esse desafio também faz parte de minhas investigações.
PAINEL IMAGÉTICO
Como aluno de um curso de Produção de Vestuário, meu interesse esteve pautado em aliar design e modelagem no processo criativo, e para tal encontrei na técnica do moulage a ferramenta perfeita para tais experimentos.
O objetivo principal é que a criação aconteça diretamente na “boneca”, manipulando o tecido, sem um desenho desenvolvido a priori. É claro que as referências de imagens, a matriz conceitual e um desejo de criação já inferem uma orientação, ma com o tecido em mãos, o seu caimento, a visualização da forma do corpo e as proporções podem direcionar por outros caminhos. Dessa forma, desenvolve-se ao mesmo tempo design e modelagem, faltando apenas alguns ajustes como manga, gola e acabamentos que são mais práticos de serem feitos na modelagem plana.
Essa experiência ainda é uma proposta de produção de vestuário que resultem em peças com maior valor agregado. Valor esse expresso pela exclusividade, pela sensibilidade da criação e modelagem diferenciada. Das três peças desenvolvidas, uma foi concluída em todos os processos e apresentada aqui como um produto acabado. Os desenhos são pequenos esboços feitos após a moulage, com o intuito de ilustrar os modelos criados.
SPENCER GOLA XALE COM COSTAS VAZADAS
CASACO COM RECORTE E PREGAS
CASACO COM RECORTE E PREGAS
Javer Volpini / Rio de Janeiro, novembro de 2009

pensando um pouco sobre moda

O mundo contemporâneo nos obriga a desempenhar inúmeras atividades o tempo todo. Precisamos trabalhar, estudar, visitar a família, sair com os amigos, passear... E em todas estas e muitas outras ocasiões, nos preocupamos sempre em apresentar nossa imagem da melhor maneira possível. E para isso recorremos ao que nos valoriza esteticamente: roupas, calçados, acessórios e adornos. Mas nem sempre nos questionamos por que nos vestimos dessa ou daquela maneira. Usamos roupas de uma determinada grife, calçamos em outra e adquirimos acessórios em algumas mais. Buscamos na enormidade de opções disponíveis, criar nossos diversos looks de acordo com o estilo que busque identificar nossa personalidade, mas ao mesmo tempo, somos também influenciados pelo que as pessoas estão usando, sem falar na forte influência que ainda sofremos da mídia a todo momento. Andamos pelas ruas, observamos as pessoas, o que estão vestindo, como são os cortes e cores dos cabelos, que tipo de maquiagem estão usando. Passeamos pelo shopping, as vitrines nos exercem uma forte atração: uma estampa diferente, uma calça “transada”, óculos fashion. Identificamo-nos com algumas coisas, desejamos outras, achamos graça ou repudiamos mais algumas. Este hábito, muitas vezes banalizado pela quantidade de informações que encontramos à nossa frente, faz com que não percebamos que esse desejo de nos mostrar ao mundo de uma forma bela, traduz todos os produtos e artifícios que constituem o que entendemos por moda. Esse tema, rotulado por muitos como trivialidade ou desnecessário, está presente em nossa vida e exerce uma influência muito forte na cultura, expressando valores, desejos, crenças, posições, comportamentos, ideologias, etc. A moda faz parte dos fenômenos culturais e é responsável pela maneira como nos posicionamos dentro da sociedade. Ela nos divide em grupos, mas, ao mesmo tempo, permite também que não percamos nossa individualidade. A moda serve para nós, não somente como portadora de objetos de proteção corporal, mas vai além disso, assumindo um caráter de extensão do próprio corpo. Ela se mostra como uma das possibilidades de externamos ao outro o que somos e o que desejamos ser. É nesse sentido que se explica porque, muitas vezes, optamos por determinadas grifes ou procuramos por alguns produtos específicos, denotando a necessidade que temos de pertencer a determinados grupos e assim nos identificarmos com os mesmos. É por esse mesmo motivo que a moda também serve como um divisor de classes, estabelecendo status, relações de poder e posição social. O que muitas vezes nos falta é justamente uma compreensão maior do que a moda realmente representa em nossa vida e como suas manifestações operam em nossas relações cotidianas. A mudança rápida que ocorre com o que vestimos, com os variados estilos que deixam de ser moda, nem sempre são apreendidos por nós. Isto se trata da própria dinâmica da moda, onde esta transformação, sofrida pelos produtos a cada estação, é o que garante o seu funcionamento e a faz ser moda. Frente a tudo isso, comumente não conseguimos acompanhar o ritmo acelerado destas transformações e nos perdemos em meio a um turbilhão de estilos e opções. Entre tudo isso, talvez ainda nos questionemos sobre a origem destas transformações e sobre quem dita o que é “estar na moda”. E assim tentamos entender de onde os criadores tiram suas idéias e inspirações até chegarem aos produtos finais. O que acontece de fato é que a moda é ditada por todos nós - pelo que estamos usando, pelo que pensamos, ou ainda pela maneira como estamos agindo. É nesta relação de comportamentos culturais e valores que desenvolvemos no dia-a-dia, que acabamos por definir o que entrará em vigor na moda. O que os estilistas fazem é estar com o “olho armado” e a sensibilidade aguçada para captar essas influências do cotidiano, às vezes buscando uma intersecção com o passado e traduzindo-as em linguagem da moda, com objetos esteticamente agradáveis, responsáveis por aguçar nossos desejos e nos seduzir perante as vitrines.
Javer Volpini / Fortaleza, maio de 2007