quarta-feira, 5 de maio de 2010

THE TUDORS: análise de figurino

Os filmes de época sempre me chamaram a atenção pelo figurino, que se desdobra em mais uma das minhas paixões dentro deste grande universo da moda, expresso aqui, pelos registros de inspirações em indumentária. Nos últimos meses o seriado The Tudors vem tomando grande parte do meu tempo e acabei decidindo adquirir a série. Fiquei encantado com o esmero dedicado pela figurinista Joan Bergin em seu trabalho e aproveito este espaço para compartilhar um pouco das minhas impressões.

RESUMO DO ENREDO

The Tudors é uma série de drama baseada na história de Henrique VIII da Inglaterra. Foi criada por Michael Hirst e é exibida nos Estados Unidos pelo canal Showtime, no Brasil é transmitida pelo People+Arts e em Portugal pelo canal estatal RTP 1 e pelo canal ZON TV Cabo MOV. O enredo deste seriado foi inspirado na dinastia inglesa Thudor, com a tomada do trono por Henrique VIII, se desdobrando nos dramas políticos, amorosos e religiosos que pautaram a vida desse soberano monarca, marcada principalmente por seus seis casamentos e a ruptura com a Igreja Católica, dando início ao protestantismo na Inglaterra.

O desenrolar deste seriado, que já conta com 3 temporadas exibidas e uma quarta em fase de produção, começa historicamente por volta de 1518 e espera-se chegar a 1558, com a subida ao trono da Rainha Elizabeth I, filha de Herinque VIII com sua segunda esposa Ana Bolena. A primeira temporada cobre os acontecimentos entre 1518 e 1530 do reinado de Henrique VIII de Inglaterra, num total de dez episódios, cada um representando um ano. Esta temporada demonstra como o rei é testado na sua eficácia em reagir aos conflitos internacionais, bem como nas intrigas políticas da sua própria Corte. A pressão para o Rei ter um herdeiro varão leva à ascensão de Ana Bolena a rainha.

A segunda temporada cobre os acontecimentos entre 1531 e 1536, durante o reinado de Henrique VIII, num total de dez episódios. Henrique corta relações com a Santa Sé, instituindo a Igreja de Inglaterra, da qual ele é seu Chefe. O cisma com a Igreja Católica e a fundação da nova Igreja de Inglaterra, abre caminho para o banimento de Catarina de Aragão. Ana Bolena casa-se com o rei, tronando-se assim rainha, mas a sua inacapacidade de dar um herdeiro varão a Henrique, leva-a à morte.

A terceira temporada cobre os acontecimentos entre 1536 e 1540, durante o reinado de Henrique VIII, num total de oito episódios. A temporada três incide sobre os casamentos de Henrique VIII com Jane Seymour, e posteriormente, com Ana de Cleves e o período da Peregrinação da Graça, onde o rei se mostra com particular crueldade. A temporada acaba com o casamento do rei com Catarina Howard.

Muitos outros personagens poderiam ser analisados, como a parte que tange aos lideres católicos. No entanto, creio que os exemplos desses personagens principais resumem a essência da pesquisa dedicada à concepção do guarda-roupa dessa série. Um trabalho digno de muitos prêmios, que exalta a paixão do telespectador e estimula os amantes – como eu – dessa arte: figurino e indumentária.

ANÁLISE DE FIGURINO

A série The Tudors é uma obra inspirada na história dessa dinastia que devido às licenças poéticas - alvo de muitas críticas - está recheada de distorções em relação a personagens, alguns períodos e fatos históricos. No entanto, este trabalho se propõe à análise do figurino, que justificado pelo meu interesse em pesquisa de trajes de época, se pontua de forma brilhante na produção dessa série.

Idealizado pela figurinista Joan Bergin, o figurino de The Tudors recebeu várias premiações em todas as três temporadas, desde 2007, como o Emmy de melhor design de guarda-roupa para séries televisivas. Inspirada no próprio renascimento e em designers de moda contemporâneos que também beberam nessa fonte, Bergin trás um figurino bem fiel à época, mas com um toque de certa contemporaneidade em alguns aspectos. Isso se deu principalmente com o uso de tecidos mais tecnológicos e algumas adaptações de modelagem para causar maior impacto e arrebatamento no espectador.

Observando essa imagem de uma dança incorporada a uma apresentação teatral, quande o Rei Henrique VIII conhece Ana Bolena, encontramos, conforme afirmação de Bergin, a inspiração em quadros de Degas e em uma coleção da Balenciaga. É possível notar referências do renascimento em vários momentos como nos recortes da parte superior do vestido que simulam a modelagem dos corsets, além do acentuado decote quadrado, tão característico dessa época. Ainda há o acessório do pescoço, que remetem diretamente ao desenvolvimento das golas renascentistas que desembocaram nos rufos. Há também uma simulação de uma manga, que não veste todo o braço, mas que fica sob ele, pendurada ao vestido, inspirada nas mangas longas, largas e em bicos dos vertugados renascentistas, ainda uma herança do período medieval.

Além de todos esses detalhes, o figurino impressiona pela leveza dos tecidos em que foram confeccionados e poderiam ser facilmente caracterizados como uma produção contemporânea. Nesse caso aqui, justifica-se pela proximidade ao trabalho de Nicolas Ghesquière, designer da Balenciaga.

O figurino de Henrique VIII trás outra característica bem marcante da produção que foi tentar ser o mais realista possivel à sua indumentária. Fora as aparências físicas dos personagens não serem compatíveis, quanto ao figurino pode-se dizer que houve uma preocupação quase museológica na sua produção.

É possível perceber uma semelhança muito grande, principalmente nas características que definem a indumentária masculina renascentista. A principal delas é o uso do gibão, “que normalmente eram acolchoados, podendo ou não ter mangas, abotoado à frente e com uma basque sobre o calção”. As mangas eram presas ao corpo da peça por atacadores e para disfarçar havia uma espécie de adorno almofadado preso sobre essa união. É fácil obervar esses detalhes presevados no figurino da maioria dos personagens masculinos da série. Ainda sobre as características masculinas, observa-se sobre o gibão o uso da jacket, parecida com uma túnica aberta à frente e de grande planejamento. Era muito utilizada principalmente para atividades de montaria.

“A parte inferior das roupas era composta pelos calções bufantes que, a princípio, eram mais longos, porém encurtaram-se de uma tal forma que ficaram muito pequenos”. Tanto esses calções, como o próprio gibão, eram comumente recortados em faixas, de modo que fosse possível aparecer as roupas usadas por baixo. Essa é uma característica tanto da indumentária masculina, como da feminina, sendo que nesse último caso, eram mais comuns esses recortes nos ombros e mangas do vertugado.

Outra característica já citada anteriormente, mas bem expressa nessa imagem, foi o uso da gola rufo que aparece inicialmente de forma discreta, como o usado pelo personagem de Henrique VIII nessa cena. Essas golas eram brancas e podiam ser ornadas de rendas. Também usadas por homens e mulheres, se desdobravam em um dos símbolos de prestigio social da época e foram muito difundidas pelos espanhóis no período do barroco. Uma grande variação desse rufo aparece posteriormente, amplamente usado na Inglaterra, principalmente pela filha de Henrique VIII, Elizabeth I. Trata-se de uma gola que cresceu tanto, que atingiu proporçõe inimagináveis. O filme Elizabeth – A era de ouro, com figurino de Alexandra Byrne, ilustra bem esse tipo de adorno.

Quanto ao figurino das personagens femininas, também há uma grande riquesa de detalhes e referências similares às características empregadas para a produção da indumentária masculina. O renascimento se mantém presente em quase todos os aspectos.

Observando essa imagem de Ana Bolena com sua personagem interpretada por Natalie Dormer, nota-se um esmero apurado no figurino, no que tange principalmente aos acessórios. Era comum à época as mulheres adornarem os cabelos com tiaras de rendas e pérolas, muitas vezes acentuando a testa, com os cabelos puxados para trás ou atém mesmo raspando os cabelos próximos ao alto da face. O quadro Monalisa de Da Vinci é um bom exemplo desse detalhe. “As pérolas, assim como o uso de jóias em geral, o ouro e pedras preciosas” foi um facínio da mulher renascentista e estiveram muito presentes nesse período na cultura inglesa e italiana.

Outra informação interessante é sobre esse famoso colar de Ana Bolena, todo em pérola com um pingente em forma da letra B e 3 pérolas em pingos na extremidade. Esse acessório é internacionalmente conhecido através da pintura ilustrada acima, no entanto, a partir deste seriado, tornou-se objeto de desejo de muitas mulheres, entrando para o leque de produtos de moda midiados pela TV.

Os vestidos renascentistas eram bastante coloridos, devido principalmente ao avanço do setor têxtil nas cidades italianas, que possibilitaram o desenvolvimento de tecidos mais luxuosos e brilhantes. A referência a esses tecidos foi muito utilizada no figurino de Ana Bolena. Por possuir características na trama profundamente relacionadas ao poder, luxúria e ambição, responsável pela sedução ao rei, a abundância de cores combinavam perfeitamente com o seu personagem.

Um exemplo disso está expresso nessa imagem, um requintado vestido em veludo vermelho, bordade em fios dourados. Nada melhor para uma representação de poder e sedução para um personagem feminino como o de Ana Bolena .

Como uma importante representante das cortes espanholas, filha de Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, Catarina trás, em sua personalidade e por desdobramento, em seu traje, a austeridade das cortes católicas.

A personagem Catarina de Aragão, primeira e “legítima” esposa de Henrique VIII, também tem seu figurino elaboradíssimo. Sua confecção segue as regras de pesquisa histórica e imagética utilizada para a maioria dos outros personagens.

Muitos outros personagens poderiam ser analisados, como a parte que tange aos lideres católicos. No entanto, creio que os exemplos desses personagens principais resumem a essência da pesquisa dedicada à concepção do guarda-roupa dessa série. Um trabalho digno de muitos prêmios, que exalta a paixão do telespectador e estimula os amantes – como eu – dessa arte: figurino e indumentária.

Javer Volpini / Juiz de Fora, janeiro de 2010.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

ARTE E MODA: interelações possíveis

A cumplicidade na relação entre estilos, estilistas e artistas que aconteceu em alguns momentos da história do século XX, é o motivo que impulsiona a organização desta mostra, manifestando uma interpretação sobre esta inter-relação.
As afinidades observadas visualmente correspondem a atitudes bem diferenciadas: repensar a vida por meio do vestuário, rever o sistema da moda, criar sinergias arte-moda para imprimir alma à indústria. Através de suas propostas, os artistas usam a “roupa” para discutirem o corpo, abarcando até mesmo questões de identidade, sexualidade, angústia de vida, desejo e fantasia, empregando o vestuário como suporte da expressão artística.
Por muito tempo, a moda ficou relegada a um segundo plano nos interesses da “academia”. Poucos foram os intelectuais que dedicaram um olhar mais atento às suas representações. Seu caráter efêmero a caracterizava como manifestação de menor valor. No entanto, a razão se sua existência está justamente no seu caráter de efemeridade. Inserida na cultura contemporânea, seria impossível deixar o fenômeno da moda passar despercebido.
Embora sem se dar conta do processo de geração da moda, o indivíduo participa ativamente dele. As circunstâncias de sua atuação, no entanto, dependem muito da natureza de sua inserção (voluntária ou involuntária) no contexto social sobre o qual se desenvolve tal processo. Tanto quanto, dependem de suas características culturais. Em outros termos, vale dizer que são fatores como idade, postura com relação à mídia, gostos pessoais, entre outros, que estabelecerão o modo pelo qual se inserirá nesse processo. Pode-se dizer também que a pessoa humana tem vivido, principalmente nos últimos tempos, em função da moda, do processo mediante no qual é gerada, assim como das transformações que esta produz. Pode-se verificar uma natural tendência de ajustamento da pessoa ao processo.
A arte contemporânea, cada vez menos se preocupa com a historicidade da própria arte e direciona seu olhar às questões externas do ser humano, suas relações com o mundo que o cerca, principalmente seu mundo social, com todas as “complicações” que estas relações implicam. Desta forma, é possível perceber no fenômeno da moda, principalmente no desdobramento de “conceito de moda”, uma forte potência para as praticas artísticas, sendo que este abarca em sua gênese a função do traje como extensão do corpo, servindo de elo com o mundo social, e por isso dotado de características culturais, sociais e psicológicas.
ARTE & MODA: desejo e fantasia
No século XX, as vanguardas trouxeram uma nova visão da sociedade. Passaram a explorar todas as formas de expressão possíveis e encontraram nas roupas um suporte contemporâneo e ágil. Os estilistas, por sua vez, receptivos às inovações, intensificaram seus trabalhos com artistas na criação de tecidos, decorações, instalações, exposições e páginas publicitárias em revistas. Arte e moda criaram tal sinergia que hoje estes gêneros se alimentam reciprocamente. A arte traz novos hábitos para o universo da moda e a roupa questiona a arte num de seus temas prediletos: o corpo.

Inserido em nossa cultura contemporânea, o conceito de moda vai além de pura vestimenta e transcende ao nível de expressão temporal, criando novos valores, sentimentos e atitudes. Vestir-se é, antes de tudo, uma conjugação de sentidos. Sentidos que ultrapassam aquilo que pretende exprimir com a roupa que se vai usar. Isto corrobora para uma das grandes funções da moda: o desejo e a fantasia.

Baseado nestes argumentos, esta mostra reúne diversos artistas que independentes de sua poética, encontraram na moda uma possibilidade de suas experiências artísticas.

Bispo do Rosário "Manto da Apresentação"

Salvador Dali
“Aphrodisiac Dinner Jacket”, 1936
Leonilson
Sem título, 1993
(bordado sobre camisa e voile costurados,
cabide de aço e arara de ferro)
Leonilson
Sem título, 1993
(bordado sobre camisas de algodão
sobre cadeiras de madeira)
Mercedes Barros “Yes Brasil”, 1996 (Vordeseite) Série Roupa Suja 160 x 80 cm
Mercedes Barros “ohne Titel”, 1996
(Vordeseite) Série Costume / Uniform
240 x 150 cm
Mercedes Barros “ohne Titel”, 1996 (Rüchseite) Série Costume / Uniform 240 x 150 cm Fabrice Langlad “Crysalide”, 1997 (malha de cola termo-fundível e pérolas barrocas) Valérie Belin Sem título, 1997 Javier Perez “Permanecer no interior”, 1995 (crina e algodão) Jana Sterback “Vanitas: vestido de carne para um albino anoréxico”,1987 (manequim e carne de boi) Elida Tessler "Inda / Still", 1996 (meias de nylon e pregos) 90 x 400 cm Nazaré Pacheco Sem Título, 1996 Cristal, miçanga, lâminas de barbear e cilindro de acrílico 129 x 39,5 x8 cm Nazaré Pacheco Sem Título, 1998 (cristal e lâmina de bisturi) Nazaré Pacheco Sem Título, 1997 (canutilho, cristal e lâmina de bisturi) Carlos Miele “Vestido de fibra ótica”, 2000 Sylvie Fleury “Platinun”, 1995 (aquário, neon, ultravioleta, botas Karl Lagerfeld) Luise Weiss Sem título, 1985 (madeira pintada, 20 x 7 x 9 cm) (madeira e metal pintado, 18 x 8 x 10cm) (pintura sobre alumínio, 15,5 x 7 x 15 cm) Giuseppe Di Somma “Atlas” Giuseppe Di Somma “Regi-Netto” Verônica França “Sutiã de Molas” Verônica França "Blusa lamê" Javer Volpini / Juiz de Fora, maio de 2006